Certa noite de sábado fui até uma igreja Presbiteriana onde os jovens de lá promoviam um fim-de-semana de palestras e debates a respeito da música dentro e fora da igreja. O palestrante, Rev. Joel Barbosa que também é maestro e docente da Unicamp, foi suscinto. Afirmou com toda a propriedade que a música na igreja é imprescindível, não dá pra celebrar um culto sem ela mesmo que seja apenas um instrumental ou um acapela. Citou até aquela cena do filme Titanic onde uma camerata tocava um hino enquanto ocorria o naufrágio. Aquela cena não seria a mesma sem o fundo musical!
Durante a nossa vida dentro da igreja de fé reformada, sempre aprendemos lições bíblicas “teologicamente corretas”, sermões nos padrões Calvinistas em “três pontos”, liturgias Luteranas muito bem articuladas com o propósito de “fixar” o tema central do culto em nossas mentes afim de que o pratiquemos durante a semana, enfim, o cotidiano Presbiteriano é baseado na teologia de João Calvino, portanto somos “reformados”. É claro que não defendo que pratiquemos a música do século XVI afinal devemos compreender as influências que a música sofre no correr dos anos. Mas como procedemos quando chega a hora de escolher o repertório dos períodos de cânticos da igreja? Muitas vezes simplesmente utilizamos as que estão nas “paradas de sucesso Gospel” sem a menor cerimônia e as entoamos em nossos períodos de louvor, muitas vezes repetindo as mesmas “frases de efeito” dos ministrantes “super-poderosos” e cheios da “unção”, ou seja, a música deixa de ser este tão importante instrumento de louvor ao Senhor e toma uma outra forma auto suficiente, com luz própria, dispensando qualquer análise do seu conteúdo teológico ou teórico musical. Outro dia cantamos uma dessas que tinha apenas três notas, a letra então nem se comenta. Intriga-me o porquê da teologia neo-pentecostal ser duramente criticada pela igreja reformada, mas as suas músicas serem tão bem vindas.
O que há por trás disso, falta de zelo? Despreparo da liderança ou comodismo?
Há os que defendem que a teologia não se aplica a música alegando que as composições provêem dos corações e mentes inspiradas por Deus em experiências que ultrapassam o entendimento e o conhecimento teológico humano. A confusão está em cogitar que a teologia reformada não seja de igual forma inspirada por Deus e a diferença pontual está em sua forma de aplicação cotidiana. Quando compomos uma música e queremos dedica-la em louvor a Deus, podemos sim ter o cuidado de procurar um bom arranjador musical para produzir seu conteúdo harmônico e um teólogo que revise a parte textual afim de evitar possíveis equívocos. Tanto o arranjador quanto o teólogo estão dentro de nossas igrejas, muitas vezes na própria UMP ou na UPA, portanto acessíveis. Preocupar-se em oferecer o melhor a Deus é a verdadeira adoração e praticar a teologia reformada também. Juntar nossos dons e talentos com os dos nossos irmãos dá forma e movimento ao Corpo de Cristo.
Aplicar a teologia reformada no cotidiano contribui para o crescimento dos nossos níveis de relação com Deus e com as pessoas ao nosso redor, o simples fato de não desperdiçarmos água é ter uma cosmovisão reformada, reciclar latinhas, evitar o uso de sacolinhas plásticas, fazer coleta seletiva do lixo, em tudo isso também glorificamos a Deus, então por que não glorificar Seu nome organizando as músicas conforme o tema da mensagem a ser pregada, ministrar à igreja com clareza e exortação bíblica sobre o que será cantado, preparar os nossos ministrantes de louvor para não se confundirem com “superstars” da música gospel ou intercessores, profetas, muito menos com os Levitas, da tribo de Levi que eram mais zeladores do templo do que músicos e que nos dias atuais não existem mais, assim como as outras 11 tribos. Todo o ritual dos templos e sacerdotes estão sendo ressuscitados pelas músicas neo-pentecostais apenas contribuindo para um requinte de santidade maior e para adornar suas letras repetitivas cheias de boas intenções, mas que terminam afastando o propósito de simplesmente louvar a Deus e elogiar seus atributos e feitos, como fruto do nosso amor por Êle.
Ao escrever esse resumo não tenho a intenção de machucar ou dividir a igreja, quero apenas fomentar o zelo pelo ministério que é do Senhor, diferenciar o louvor da adoração, a música do Gospel e a teologia, do Homem.